quarta-feira, 7 de abril de 2010

E o que sobra? O que sobra é um banco gelado, uma brisa congelando seu corpo. Um poste de luz incidindo sobre seu rosto, repleto de lágrimas disfarçadas e congeladas pelo frio. O barulho sutil das árvores inquietadas pelo vento. Uma porta bate. Não se ouve nada além de uma folha seca percorrendo o passeio. Após trancadas as portas, a silhueta de um guarda desaparece na escuridão e ela continua ali. Banco gelado, coração sangrando.

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Não há nada mais secreto que a noite e um travesseiro. Nada mais íntimo, nada que consiga alcançar tão a fundo os sentimentos ofuscados pelo tráfego incessante dos carros, pelas tarefas e obrigações do dia-a-dia. Nada como a noite, exímia acolhedora das lágrimas e dos pensamentos angustiantes que tardam em passar. A dor que ela sentia era só dela e só cabia a ela decidir entre a dor ou a indiferença. O caminho da dor é o mais fácil, pois a indiferença, apesar da falsa idéia de comodidade e apatia que passa, exige um alto grau de esforço mental para alcançá-la. A indiferença é a virtude dos fortes. Ou, pelo menos, dos mais calejados pela vida. Já a dor é nada mais do que a insistência. Insistência em tentar, pensar, remoer, investir e acreditar. Enquanto a dor é quem dá a vida, a indiferença é quem assassina o lirismo, a poesia e as emoções. É a racionalização das tragédias sentimentais. A virtude dos cansados, que se renunciaram a dor. A indiferença é o muro que nos deixa inatingíveis.

O antagonismo presente entre ambas nos leva a refletir sobre qual seria o melhor caminho a se seguir. Se ela seguisse a dor, se feriria o quanto mais insistisse.. mas não mataria o lirismo e estaria presente nela o sangue quente da dor, aquele que diz: "Não se precipite, vale a pena. Olha só como meu calor não te deixa congelar, a dor é grande mas é ela quem te move e motiva, quem aguça seus sentidos, arrepiando cada fio de seu corpo para que se sinta viva..". Já se ouvisse a voz da indiferença, passaria inevitavelmente pela dor também. Dor de se renunciar ao que é belo e ao mesmo tempo trágico, ao que acelera o ritmo cardíaco e deturpa todos os sentidos. Dor da incerteza de essa indiferença ser realmente o melhor a se fazer. E, após a "decisão gravemente pensada", eis que se ergue a grande estrutura de aço - a indiferença - que tem suas bases construídas sobre os escombros da dor e os espinhos do "sentir". A estrutura é grande e ameaçadora, a protege de qualquer ataque, mas, além de um muro grande, ela possui um teto por onde não passa luz. Ela se encontra segura, porém isolada. Não pode ver a luz do dia, tampouco sentir a brisa leve que lá de fora se sente. A indiferença anula os sentidos, retira do sangue o calor lírico, o transformando apenas em um fluido encarregado de transportar oxigênio, gás carbônico e nutrientes por todo o corpo. Sem mistificação, apenas o sangue. Nada é senão o que é e toda poesia é inútil.

Afinal, o que ela deve seguir? O ódio e o amor próprio insistem no muro inatingível da indiferença. A incerteza ainda a faz permanecer na dor que, parte encontra-se a perfurá-la interminavelmente, parte transformou-se nestas palavras.














O que dirá se o correto seria a dor ou a indiferença é insistir. E insistir requer dor. A vida é um laboratório e não se comprova o resultado até que se termine o experimento.