Sede como quando, depois de uma longa e exaustiva caminhada exposta ao sol, finalmente chego na porta de casa, tiro a chave em uma pressa capaz de me faz errar o buraco da fechadura algumas boas agoniantes vezes até que o grande ato final aconteça, abrindo, então, a porta que representa o primeiro grande passo para o êxtase do alívio. Subo as escadas num ritmo desesperado, como um animal faminto diante da presa fácil, que vê o portal para sua satisfação tão próximo, mas temendo não alcançá-lo por alguma fatalidade. Finalmente, 102.
Em um minuto, ajo como quem arduamente atinge, após tanto anseio, a tão almejada liberdade, e, tomada por um alívio quase alucinante, desfruto do breve prazer de atirar o par de tênis abafado para longe, vestir alguma roupa menos repugnante e - a tão desejada, a rainha das gargantas secas - água. Abro a geladeira e despejo dissimuladamente o líquido além do limite do copo, derramando o resto sobre a mesa de mármore e, em goladas que são maiores que minha própria capacidade, deixo escorrer sobre meu rosto o resultado de tamanha pressa e desejo por satisfação. Enfim, satisfeita.
Mas não é dessa sede que falo. Falo daquela sede que somente as luzes turvas da noite saciam, aquela regada a álcool e lascívia. Aquela que me faz ansiar pelos sábados e desprezar as segundas. Aquela que se disfarça quando nossos olhares tímidos e sóbrios se cruzam, desejando menos sanidade. Aquela sede de ação, de intensidade, que se manifesta nos corpos sedentos por vida, arrepiando-os em cada entranha, seja por solos de guitarra, seja por uma voluptuosidade qualquer. Aquela delirante que se manifesta em plano quase real a cada lapso de memória.
Aquela que não quer controle. Que não quer disfarce.
Aquela sede.
Ingênua e demoníaca. Efêmera e eterna.
Minha garganta está seca e eu tenho muita sede.
Mas lembre-se: um copo não basta.